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Discografia


Rolando Castello Jr Rock'n'Roll até no nome

 

Correio Braziliense - Por Pedro Brandt

24/02/2012

 

junior

Rolando Castello Jr.: "Acho que não sei fazer outra coisa. Nasci roqueiro e vou morrer assim."

 

Rock n' roll até no nome

Líder da Patrulha do Espaço, o baterista Rolando Castello Jr. gravou discos clássicos, como as estreias do Made in Brazil e do trio argentino Aeroblus, além de Elo perdido, com Arnaldo Baptista


O baterista Rolando Castello Júnior hesita em revelar quando nasceu. “Meu empresário disse para não contar a idade”, brinca o paulistano de sotaque carregado, antes de informar a quilometragem. Aos 58 anos, Rolando acumula mais de quatro décadas dedicadas à música, ou melhor dizendo, ao rock. “Isso é a minha vida, né, veio. Acho que eu não sei fazer outra coisa. Nasci roqueiro e vou morrer assim. Gosto de tudo que envolve o rock: tocar, viajar, conhecer novos lugares, pessoas legais. Tenho rock’n’roll até no nome!”, diverte-se. 

Rolando é um autêntico personagem do rock brasileiro. Profissional desde 1970, ele tocou com incontáveis músicos no Brasil, Argentina e México (países onde viveu) e fez parte de bandas como Made in Brazil e Patrulha do Espaço, grupo formado em 1977 para acompanhar Arnaldo Baptista e que, após a saída do cantor, trilhou carreira própria e está até hoje na ativa — com Rolando como único membro original e figura central na continuidade da banda. O próximo disco da Patrulha, Dormindo em cama de pregos, sai ainda este ano. 

Foi numa das passagens da banda por Brasília que Rolando conheceu a artista plástica Marta Benévolo, hoje sua mulher. Há quatro anos o músico mora em Brasília. A bateria Ludwig de cor azul — um modelo vintage feito há 30 anos — montada na sala do apartamento do casal foi adquirida recentemente. Mas Rolando conta que não costuma tocar muito para não incomodar a vizinhança. Num móvel da mesma sala é possível encontrar outra paixão do baterista: as histórias em quadrinhos. E não qualquer HQ! Sua enorme coleção tem a nata dos quadrinhos argentinos e europeus. “Já tive muito mais coisa, que fui vendendo em tempos de aperto”, conta. 

Entre um cigarro e outro e muitas xícaras de café, Rolando relembrou diversos momentos de sua trajetória artística e pessoal. 

Como você começou na música?
A música sempre esteve presente na minha casa. Minha mãe tocava piano, minha irmã tocava um pouco de violão. Mas a música me pegou mesmo com os Beatles. Meu primeiro disco foi o compacto com I wanna hold your hand e She loves you. Eu vi que não tinha o dom para tocar violão, até por causa do meu problema físico (Rolando teve poliomielite aos dois anos e ficou com a mão direita deformada). Daí, eu comecei a tocar bateria, por causa do Ringo Starr. Na verdade, por causa dos Beat Boys, uma banda argentina que morava no Brasil e acompanharia Caetano na Tropicália. Eu os vi tocando Day tripper, dos Beatles, no programa Jovem Guarda. Quem tocava bateria na banda era o Marcelo Frias, que depois tocou com o Secos & Molhados. Meu primeiro professor de bateria foi Chumbinho, conceituado baterista de São Paulo, que dava aula num conservatório perto da minha casa. Mas eu fiz poucos meses de aula, aprendi mesmo tocando em casa. Teve também um amigo que me ensinou umas levadas de bumbo que mudaram a minha vida. A bateria é um instrumento meio burro, não é tão difícil assim. 

Você passou um tempo no México, certo?
Comecei a tocar profissionalmente no México, em 1970. Toquei com várias bandas, entre elas, uma já estabelecida, a Parada Suprimida. Mas meu maior privilégio foi ter substituído o baterista do El Tri, uma das maiores bandas do México, grupo do Alejandro Lora, dono de ótimas letras, com muito conteúdo. Até 1973, quando voltei para o Brasil, tevo ter feitos uns 600 shows no México, de batizados e casamentos até festas de rock. 

Em 1974 você entrou para o Made in Brazil e gravou com eles o primeiro LP da banda (conhecido como “Disco da banana”). Como foi tocar na banda?
Gosto de lembrar dessa época como um ponto alto da minha carreira. Na época, o Made era uma grande banda. Seria como é hoje em dia um Jota Quest, um Paralamas… Foi o ponto alto, ao menos em nível de mídia e grana. Estávamos numa boa gravadora, fizemos o disco com todas as condições, com ótimos arranjos de metais do maestro Salinas. É um disco muito digno. Fiquei uns dois anos na banda. 

E como se deu a sua entrada na banda argentina de hard rock Aeroblus?
Em meados dos anos 1970, a coisa estava muito ruim para o rock no Brasil. Eu estava em casa, deprimido, e pedi na portaria do prédio que não me interfonassem se alguém aparecesse me procurando. Só que saiu um porteiro e entrou outro, que acabou me chamando. Quem estava atrás de mim era o baixista argentino Alejandro Medina, que eu conheci num show do Made. Ele me convidou para ir tocar com ele e o Norberto Napolitano, o Pappo, que foi um dos maiores guitarristas do mundo — e não sou nem eu que falo isso, foi BB King quem falou. Eu já era fã do Pappo, como iria recusar? Esse projeto foi o Aeroblus, que gravou apenas um LP, hoje um disco raro, cultuado na Europa e Japão. Esse disco fez com que eu ficasse conhecido no meio do rock de lá. Tanto que eu vou direto tocar na Argentina. Só este ano, tenho umas duas viagens agendadas para o país. 

E como começou a Patrulha do Espaço?
Em Buenos Aires, eu morava na casa do Pappo e voltei para o Brasil quando ele se casou. Eu trouxe a bateria comigo, porque queria tocar, fazer alguma coisas com os amigos. Chamei o Oswaldo “Cokinho” Gennari, baixista, para fazer um som. A ideia era formar um trio, queríamos chamar o Luiz Chagas, pai da cantora Tulipa e ótimo guitarrista, para tocar com a gente. Nesse meio tempo, o Arnaldo Baptista chamou o Cokinho para tocar em uma nova banda e ele me indicou para a bateria. Depois, veio o John Flavin para a guitarra. Era para ser uma banda, a Patrulha do Espaço, mas virou Arnaldo & Patrulha do Espaço. Eu era fã do Made in Brazil e acabei tocando com eles. A mesma coisa com o Pappo e com o Arnaldo. 

O disco de estúdio de Arnaldo & Patrulha, Elo perdido, foi gravado em 1977, mas só lançado em 1988. Por quê?
Na época, oferecemos o disco para várias gravadoras e ninguém quis lançar. A banda implodiu por desentendimentos nossos com o Arnaldo. O que as pessoas ouvem é na verdade uma mixagem bruta que o Cokinho levou para casa e acabou sobrevivendo ao tempo. A verdade é que esse disco nunca foi devidamente finalizado. Em 1987, eu lancei o Faremos uma noitada excelente, disco ao vivo de Arnaldo & Patrulha, com músicas de um show de 1978. O disco teve uma recepção legal. Com isso, o cara do selo do Vinil Urbano me convenceu a lançar o Elo perdido. 

O documentário Loki, sobre o Arnaldo Baptista, mostra umas cenas de vocês tocando num programa de tevê.
Essa gravação foi marcada para o meio-dia e ficamos esperando até as 19h para gravar. Eu dei uma dura no pessoal da produção e, finalmente, eles começaram a trabalhar. Filmaram a passagem de som — quando tocamos parte da música Cowboy, só para ver como estava o som — e mais duas músicas. Daí, quando isso foi ao ar, fizeram uma grande sacanagem com a gente: exibiram só a passagem de som, nenhuma música inteira, e ainda tiram uma com a nossa cara! 

Como é tocar com o problema que você tem na mão direita?
A Patrulha é muito conhecida em Porto Alegre e, certa vez, um cara veio falar comigo depois de um shows e perguntou: “Como você toca assim?”. Eu pensei que ele ia perguntar como é que eu tocava assim tão bem. Foi quando percebi que ele também tinha um problema na mão. Respondi a ele que eu toco assim porque nunca pensei que não pudesse tocar!